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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Parábola do inverso



- “Quantas vezes já te disse que morra?”
                Todos os dias era assim que ela respondia aos apelos do pobre rapaz insistente, sedento por uma migalha de atenção da rainha de seus sonhos. Redes sociais, sms, e-mails e até cartas ele arriscou usar para ter uma única chance com aquele poço de arrogância que despertava tanta repulsa na maioria das pessoas.


                Permitam-me apresentá-la antes dos pormenores. Natasha era estranha. Não havia melhor palavra para ela. Apesar dos traços suaves vindos da descendência europeia em harmonia com a herança cigana, vestia-se de forma inadequada para uma professora. Os cabelos mudavam de cor frequentemente, assim como as unhas que ostentavam as cores mais bizarras que poderiam existir.

                Em meio à maquiagem e aos acessórios exóticos, Natasha tentava esconder o lado negro da sua natureza. Desde cedo, seu maior prazer era provocar a dor. Não a dor física – esta lhe provocava a graça -, mas a dor moral. Nada lhe fazia mais plena do que trazer à tona os maiores flagelos da alma de quem se submetia aos seus caprichos.

                Era sempre a mesma ladainha. No início, buscavam o chicote e a adoração. Ela aceitava quase piedosa, com alta dose de generosidade. Chegava a ter candura nos olhos. Aos poucos, quando ganhava terreno, tomava conta da alma submissa das suas vítimas. Os flagelos eram muitos; variavam da sensação de impotência à vitimização extrema. Os que antes eram belos homens se tornavam verdadeiros trapos dependentes dos seus carinhos e dos seus conselhos.

                Até que um dia aquele servo que tanto implorava por uma chance de se acorrentar ao inusitado parou de procurá-la. Tão acostumada que estava com os galanteios e insistências, Natasha estranhou. Logo ela, que carregava no nome o código gélido de quem não admite ser interrompida em suas intenções, ainda que aparentemente disfarçadas de recusas. Natashas já são críticas por demais com si mesmas e com os outros...

                Estranhou. Talvez ela nem fosse tão estranha, mas os outros lhe 'pintavam' assim. Passou a olhar diariamente os mesmos locais onde ele costumava deixar suas súplicas. Não mais apareceu. Nem uma palavra. Nenhum “Senhora”, “Rainha” ou Deusa”. Muito menos um “por favor”. Passaram-se algumas semanas e ela já estava perdendo a noção das suas rédeas com os demais, aflita por alguém desistir dela sem mesmo tocá-la.

                Quando reapareceu, já ousava chamá-la por Natasha. Tornou-se um espelho de suas fragilidades. Cada vez que ela lia “Natasha” sem a presença do símbolo mor da “Rainha”, seu sangue gelava; os argumentos eram perdidos; o autocontrole se esvaia sem muitas explicações.

                E sucessivamente a conversa amadureceu despindo o ego da provocação; dando lugar ao profundo, onde não mais residia o prazer. E quem se machucava agora era ela, num ímpeto de masoquismo antes adormecido. Para sobreviver, ela passou a reencontrar velhos caminhos, na esperança de ver novamente o semblante de Rainha no espelho da emoção.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A construção do imaginário



Neste pequeno breviário vou me referir aos dominadores, sobretudo a alguns muitos famosos no nosso meio. Em conversas com alguns amigos do grupo SAT BDSM, e outros sem grupo e de outros grupos, percebi como a construção do imaginário é algo complexo dentro e fora do meio.

No meu estudo, onde recortei um grupo e uma classe de fetichistas, fica explícita, pelas próprias leituras de Sade, Masoch, Bataille, Morin, Millet, Pietroforte, Stanton, Grillet e tantos outros, a percepção de que tudo começa num sonho que pode ou não virar uma fantasia, bem ou mal resolvida na cabeça das pessoas. No geral, todos têm fantasias. Alguns sufocam e outros resolvem assumir.

Óbvio que não vou fazer apologia aqui. O mundo não é BDSM. Não acredito nisso. São tipos de fantasias muito específicas que podem se tornar realidade. Mas acredito sim que todos têm um lado B. Sempre falo isso porque observo o quanto isso sufoca e atrapalha a vida prática das pessoas que se podam.
E construir um perfil dominador coloca para fora os sonhos mais remotos, desde os super-heróis que habitaram a nossa infância; o pai que era o Máximo; uma paixão por mitologia e seres com muitos poderes; a sensação de ser adorado e venerado pelo clubinho do bairro; as brincadeiras com os colegas envolvendo as cordas, as vendas e as mordaças; as privações de sentidos envolvendo ar, água, terra, fogo; o polícia e ladrão; os comandados e os comandantes. E por aí vai. A psicologia está cheia de exemplos e links entre essas construções.

Conversando com um ex-sub muito querido, concluímos que pessoas como Sr. Verdugo, Sr. WZ, ACM, Metatron, Parallax, JonatanStrange, MistressBela, Mistress Belle, Rainha Laura e tantos outros dominadores – e me incluo na lista – nem sempre passam uma imagem fiel acerca de suas personalidades. Os motivos, francamente não sei. Mas tenho duas hipóteses: a primeira diz respeito ao imaginário dos submissos que se apegam às fotos, às descrições que estão em suas mentes sobre dominadores, sádicos e figuras do SM idealizadas; a segunda é a força das personagens criadas por cada um de nós propositalmente e, neste sentido, acho até saudável esse distanciamento porque aumenta o interesse e o tesão.

É freqüente ouvir de submissos, masocas e até de dominadores menos experientes uma certa idolatria para alguns desses nomes. Não que eles não mereçam; pelo contrário. Cada um nas suas especialidades merece toda fama e elogios que possam ser endereçados a eles. São pessoas que ajudaram a divulgar e desmistificar o BDSM em nível regional, nacional e até internacional.
Jade, por ACM-BoundBrazil

Mas pensar que Verdugo andará pelas ruas da cidade com um machado ou que sua vida se resume a planejar cenas com sangue a agulhas é até engraçado. Ou imaginar que WZ e ACM vivem com metros e metros de cordas a punho o tempo inteiro. Ou ainda, que Mistress Bela e Mistress Belle não fazem mais nada da vida do que cuidar dos seus mundos fetichistas e seus discípulos. Mais ainda, pensar que Parallax e JonatanStrange – ou mesmo eu – são pessoas más, sórdidas, que vivem planejando meios de derrubar os pobres iniciantes sulistas em armadilhas é patético. Já ouvi a seguinte frase sobre meu brother: “O Parallax deve ser muito malvado porque a cara dele é de poucos amigos”. Olha gente, se existe amizade real, ali está um belo exemplo! Claro que ele só é amigo de quem realmente sintoniza ou que enxerga verdade nas atitudes. E com ele faço meu coro, assim como garanto que a regra valha para todos do meio que tenham personalidade e caráter.

Há quem fique maravilhado porque vê em meu álbum as fotos com o ACM, assim como comentários carinhosos aqui no meu blog. Gente, ele é uma pessoa de carne e osso, tem sentimentos, simpatias e afinidades. Eu o amo e ele sabe disso. Logo, trata-se de uma relação normal de amizade. E ele nem é tão malvado assim...rs

E não escrevi tudo isso para criticar a construção desse imaginário, mas porque passei a admirar mais ainda essas pessoas, as quais acompanho o trabalho, as ideias, os blogs, algumas posturas e suas desenvolturas com seus instrumentos, sejam físicos ou psicológicos.

Também fiz meu devaneio em cima das conversas com meus queridos. Afinal, são eles que alimentam nossas vaidades, enchem nossas vidas de glamour e de planejamento para tarefas cada vez mais aprimoradas. Viva a prática e viva a diversidade dentro do SM. Meu respeito a todos os mestres e dominadores, e a todos os que se assumem submissos, masoquistas e switchers. Em meio a tudo isso, nem sempre é fácil se sentir com os pés no chão num universo tão fantástico e cheio de possibilidades.


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A Midwinter Night's Dream***

I arrived at my Mistress place and all of my feelings where touched by that pleasant atmosphere. It was inviting enough for wishing a hole life standing there close to my owner. She informed me all the instructions for the night as I entered her garçoniere."-I'm going to set you ready as I'm used to doing. I'm going to leave you alone as long as I want it. I need to take a refreshing shower and latter some delicious meal for dinner. Be polite!, Do not disturb my silence! I want you thinking about how good is this pleasure I offer you!

I was left there naked! My mouth was muted by a silver tape forcing my words inwards. My
silence was enhanced when she inserted those ear protectors due to leave me in contact with the thoughts inside my desire. My Mistress bandaged my head keeping my eyes totally in the dark. Without further words she left.

I was getting blue for feeling nothing but the cold floor under my empty butt. What a sad sadness! I love to be left tied, immobilized for hours and senseless. How I wonder she had tied me, plugged me in! Sad!

Suddenly I felt her hands on my butt cheeks inserting me a toy. My legs were bent to wear some panties. I heard her voice saying "-That makes you more comfortable!".



I was getting excited then I heard a new age song. Calm, soft... my time was coming.

The song was not clear anymore! My Mistress surprised me with her voice, close to my head. I couldn't feel her next to me but her voice. Maybe she was far from me, speaking with her red lips into the microphone.

I got the clue! It was a relaxing game. She was telling me to breath slowly, release the strength I had on my muscles. I was already relaxed with the voice of Her. Everything was perfect! I was constantly ordered not to move my arms and legs.

She told me to feel the scent of patchouli and it was getting stronger! It seemed to be within my nose. I was getting confused! I couldn't tell if my feelings were real or just my mind surrounded by desire.

This feeling play was getting more exciting as I felt a hand pressing my nipples and taking off my panties on my knees. I was confused, and the voice in my brain was telling me lots of nasty words. I was hot! My cock was hard as I've never felt it before.

The tape (as I presume) told me to feel the soft texture of her mouth sliding along my cock. I would love to never stop that feeling. I was put in a trance. I tried hard to move my body but I was immobilized, not with ropes but with my mind. I couldn't move my legs and arms. The voice was there saying what to feel. I was exposed to those words that my body and mind were under control.

I lost the track of reality among those feelings, words and senseless members.

Everything was precisely synchronized that I couldn't notice if I had lost my sanity or not. The voice of my Mistress told me to cum and my cock obeyed! Then I was told to relax and be in silence. It was so confusing, wonderful and inebriating. I was sure my arms and legs where there but I cummed immobilized.

I was relaxed! The voice told me my Mistress was unhappy that she could be healed punishing me. My mind started another cruising trough words and feelings. I was told to imagine a long and flexible cane touching the inner part of the thigh. At first I felt a light burning an then it started a torrent of crackings like rain beating down on my thighs.

Then I heard I would feel a hand turning my body aside to leave my butt free for another punishing act. The voice was telling me the facts that made me deserve those violent blows. I was remembered that I had to be an obedient submissive. That was the only way to make my Mistress happy.

It was so painful each rhythmic stroke I could feel inside my soul. My inert body was taken by the command of my Mistress severe as never.That feeling would remain for a long time as I was informed by the voice not to forget the power of my Mistress.

After consolidating in my mind the sensation of burning in my butt the voice made me relax again. The voice was gone and I could listen to the relaxing music again. The next song came with the presence of my Mistress letting my eyes and ears free again. Then she fed me.

Her skin was fresh and scented as she had just left the shower. The dinner was ready. There was no evidence of incense, cum or cane in the room. Everything was carefully in the same way. My buttocks were burning. That was the only thing that made me sure about everything I'd been through in that room (or in my mind). I touched the burning skin with my hand but it seemed normal. But the burning feeling was there!

*** Conto escrito pelo meu Monstrinho e fofamente traduzido / adaptado pelo Cosmo.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Três passos para uma masoquista sem rumo

Passo 2:

...

Mudei de idéia. Coloquei-a sobre a cama, como quem debruça uma estátua delicada no melhor canto da sala. Sempre carrego pelo menos uma vela comigo e uma caixinha de fósforos. A de hoje era vermelha, de 10 dias, para produzir muita cêra...

Coloquei a venda na moça, um tanto tensa. Corri meus dedos sobre seu corpo, belisquei os mamilos e beijei sua barriga. Observei o sexo úmido de tesão, apreensivo. O cheiro da pólvora tomou a atmosfera e ela deu um gemido abafado.

A formação da cêra quente é um momento ímpar na cerimônia de dominação; momento em que a domme observa seu alvo com respeito, autoridade, admiração, lascívia. O corpo da deliciosa masoquista havia sucumbido aos meus encantos. Não tratava-se de uma submissa e sim de uma moça que apreciava a dor, mas precisava ser convencida a confiar nas mãos de quem se propunha a subjugá-la.

Pinguei algumas gostas nos seios. Os gritinhos foram deliciosamente excitantes. Ambos ficaram vermelhos quase por inteiro. Torci os mamilos e puxei os prendedores. Delicamentemente apertei cada biquinho, deixando-os roxos.

Decidi amordaçar a moça com um dos meus lenços de seda - o preto. Ficaria mais sexy a cena, para meu deleite solitário. O som dos gritos contidos me excita.

Cada gota que caía, um degrau a mais no prazer. Não me contive e deixei a vela na cabeceira. Tinha que sentir seu néctar com os lábios. Minha leitura é sempre tão mais completa com os lábios, como se neles houvesse uma sinestesia apurada dos sentidos.

Ela estava molhada, rija, crescida, doce. Se contorcia com meu toque da língua. Mas meu limite estava distante. Peguei as cordas e resolvi lhe impor mais uma privação: amarrei-lhe os pulsos e os tornozelos, de forma que ambos ficassem unidos e eu a pudesse mover como uma canoa e, quando conveniente, pudesse afastar suas pernas.

Lindo! Já estava banhada de cêra vermelha cristalizada quando eu resolvi usar meu strap-ons. Ainda vendada, ela pôde sentir o gel frio escorrendo em meio às nádegas. A posição do bondage era perfeita para a penetração. Movimentava os quadris e mordia sua orelha em meio aos cabelos presos na venda. Fiz questão de respirar ofegante na nuca enquanto ela reagia apertando meu "membro" cada vez com mais força. A vadia sabia engolir um pau e não foi diferente com o meu, ainda que não seja exatamente uma parte oficial do meu corpo.



A sensação de comê-la e ir desgrudando a cêra aos poucos era a união perfeita entre a volúpia e o lúdico. Brincamos muito. Ela ria, sentia cócegas, gemia. Tirei a mordaça da boca e a beijei longa e profundamente.

Soltei todas as cordas. Apenas a venda permanecia.

- Agora vamos ver se você é boa mesmo. Me faça gozar!

Como quem tem na sua frente a última garrafinha de água no verão, ela se jogou entre minhas pernas, acertando o alvo de primeira. Vendada, sentia meu calor e excitação crescentes. A menina era realmente muito boa. Ulálá!

Em certos momentos, me fez lembrar meu Monstrinho... saudades...

Enfim, a danada conseguiu me arrancar dois orgasmos dos mais longos, daqueles bons, que deixam a gente com as pernas bambas.

Ainda deitada entre minhas pernas, os olhos ganharam uma malícia a mais:

- Quando vou conhecer teu sub, Mistress?
Pensei um pouco...
- Espero que em breve.
- Passei no teste?
- Que achas?
- Dei o melhor de mim.
- Não creio que deu o melhor de si, mas foi o suficiente para um teste e para te credenciar a conhecer minha peça mais cara.
- Obrigada, Mistress. Na verdade só o fato de estar contigo já foi um prêmio pra mim.
- Não puxe meu saco senão vou mudar de idéia. Sei o que sou, minhas virtudes e fraquezas. O reconhecimento quero que venha em forma de prazer e letras. No teu caso, a primeira opção me basta.

Algo em mim queria ir adiante no diálogo. Porém, respeitando o tempo de cada um, resolvi calar. Ser admirada talvez fosse um boa para manter a masoca no limiar da sensatez. Nada de apologias a verdades ou sanidade, mas bom senso nunca é demais!

Tomamos um banho divertido de banheira, brincamos um bocado e terminamos no cachorro-quente da esquina da minha casa, onde os marmanjos admiravam as únicas mulheres risonhas-desbocadas-ousadas-infantis.

Próximo encontro marcado para o acaso...

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Ode ao amor BDSM


O dia está nublado assim como a minha alma. No balanço das últimas estações, nem tudo foi tão agradável. Mas eu sempre me alimentei do cinza e, hoje, ao completar 32 primaveras, vejo o quanto é importante certas constatações. Sim, porque é preciso ter algumas certezas na vida, oras...

E como este é o espaço da Lady Vulgata, ainda que ela seja parte de mim, quero partilhar uma das constatações desta deliciosa porcentagem do meu ser. No último ano, conheci muitas pessoas do meio BDSM. Alguns se tornaram grandes amigos, alguns eu tive um breve romance, por um, em especial, eu me apaixonei profundamente. Claro, houveram decepcções. Infelizmente há pessoas, não só no BDSM, mas em todas as partes, que crêem que somos meros peões de um tabuleiro, sem sentimentos, sem emoções, sem responsabilidades e sem respeito. Felizmente, foram poucos estes tipos que cruzaram minha vida neste período, ainda que virtualmente.

E eu não posso esquecer de falar do meu querido Monstrinho. De uma maneira nada convencional e graças e uma atitude inédita minha, eu "provoquei um acaso". Posso dizer hoje que foi um ano especial para mim. MZ é o melhor sub que já tive por diversas razões. É divertido, dedicado, criativo, amigo, tem fetiches iguais aos meus, é carinhoso, se preocupa comigo, etc, etc... Enfim, como domme sentimentalóide que sou, o sub quase perfeito (não fossem as vezes que me pôs em pânico).

E este post é pra comemorar meu aniversário e a conquista da relação ideal BDSM na minha visão - com cumplicidade, confiança, criatividade, dedicação e amor. Monstrinho me fez ver que o verdadeiro sub não é aquele que usa o masoquismo para realizar as fantasias da Rainha e as suas próprias com o repertório que ele mesmo imagina; o verdadeiro sub é aquele que decifra os caminhos da Dona, usando os desejos dela para o seu deleite, fazendo-a ir além das suas expectativas.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Três passos para uma masoquista sem rumo

Passo 1:


Ela fugia. Não sabia do quê, mas tinha dentro do âmago de sua alma a certeza que precisava fugir. Veio do meio do país, lá onde o Governo brinca com nossos destinos. Era doce, de olhos expressivos e boca carnuda. Gostava de sentir na carne o estalar dos dedos e do couro. A dor era sua rendenção. Para ela, tudo era dor, num misto de prazer e fatalidade. Acreditava que a liberdade aprisionava sua alma. Buscava um dono, uma dona... ou ambos...

Na cidade da magia, tudo parecia perfeito, menos a garota de olhos tristes que não conseguia encontrar a alma que a acorrentaria. Meses se passaram, caminhos se cruzaram e numa mesa de bar, diante dos amigos de tempos e práticas, ela sentou na minha frente, fitando-me com admiração e curiosidade.

- Finalmente te conheço pessoalmente. A famosa Lady Vulgata... És muito falada por todos!
- O prazer é meu. Falada? Espero que bem... ou não...kkkkkkkkkkkkk
- Sim, os ditos são os melhores possíveis, o que me fez ficar muito curiosa em te ver
- Hummmmm

Pisquei pra ela e senti que poderia ganhar terreno. Nunca tive uma sub, embora já tivesse feito sessões conjuntas na presença de escravas de outros doms amigos meus. Não me intitulo bissexual porque nunca desenvolvi sentimentos mais profundos por alguma mulher. Algumas, de tipos bem específicos (ousadia, inteligência e atitude), me despertaram tesão e com poucas tive algum contato mais caliente.

Mas não deixo de admirar as mulheres. Sou uma delas com muito orgulho. No geral, somos fortes, versáteis, espertas e sensíveis, além de sabermos explorar muito bem a incrível necessidade que o ser masculino tem de ser o centro das histórias.

Pois bem, depois de algum tempo passado, resolvi entrar em contato com a moça. Alguns recados no orkut, interações no FetLife, conversas no msn e...

- Sabia que te acho uma delícia e me coça as mãos de vontade de te dar uns tapas?
- Nossa, que é isso? Será que deus vai ser bom comigo a esse ponto?
- Depende. Pode ser deus ou o diabo. Ou ambos, já que o prazer faz parte da vida. Quero você, menina!
- Quando? Quero ser tua cadela, Mistress
- Antes, tens que aceitar uma condição posterior
- Faço qualquer coisa pra sentir o peso da tua mão
- Farei uma sessão contigo e te matarei de prazer, mas depois terás que participar de uma sessão conjunta com meu sub
- Como ele é?
- Confia em mim! Se quer que eu seja tua domme, tens que confiar que sei o que é melhor pra ti. Mas não se preocupe, Monstrinho é um apelido carinhoso
- Confio... cegamente
- De brinde para teu deleite: ele é lindo!

Sucessões de elogios e rasgações de seda, que em nada contribuiríam neste post, se seguiram. Combinamos que a sessão apenas com nós duas seria em breve e a com ele dependeria de casar as agendas dos três. Mesmo assim, aconteceria em no máximo um mês.

No dia marcado, pedi que ela fosse com uma saia ou vestido curtinho. Marcamos num bar popular no circuito underground da cidade. Ela obedeceu e estava impecável, usando uma gargantilha que imitava uma coleira. Olhos bem marcados pela maquiagem e boca vermelha.

Cheguei causativa, como sempre, porém mais simples do que costumava me apresentar. Vestido pelos joelhos, botas de cano longo pretas, maquiagem mais leve e alguns acessórios no pescoço, orelhas e mãos. A boca, como sempre quando queria impressionar, estava carmin.

Sentamos, nos olhamos um pouco, pedimos uma bebida, conversamos amenidades e eu me aproximei, colocando a mão entre suas coxas. A pele gelada denunciava o nervosismo, mas os músculos a traíram, apertando minha mão com força. Puxei seu pescoço por trás dos cabelos perfumados e a beijei com toda paixão que conseguia demonstrar por uma alma disposta a me dar prazer.

Beijo longo, delicado e delicioso. Os amassos se seguiram, mais e mais quentes. Terminamos o drink em meio a um beijo e outro. Sussurrei no seu ouvido: "agora quero ver o que a cadela sabe fazer". Ela me olhou com uma expressão frágil e maliciosa, que fez subir minha temperatura e molhar minha calcinha. Puxei-a pela mão, pagamos a conta e saímos no meu carro.

Como de costume, não a levei para minha casa porque esta honra só concedo aos que ultrapassaram a barreira da confiabilidade básica e provaram que são bons. Em direção à SC-401, as mãos não tinham posição sobre suas coxas. Dirigindo percebi o desconforto e puxei a mão esquerda dela para meus seios. Rapidamente ela entendeu o que deveria fazer e começou a me bolinar. Minha calcinha já estava molhada, quando ela ergueu meu vestido e descobriu o caminho para me enlouquecer de vez. Os 10 km restantes foram de tortura para esta domme que tentava se concentrar na estrada sem muito sucesso.

No motel, quase todas as suítes ocupadas. Pedi a primeira que vagasse e entrei. Coloquei o carro de qualquer jeito na vaga e sequer baixei a porta da garagem. Tive tempo de pegar minha bolsa onde estavam meus "brinquedinhos". Subimos as escadas do motel nos agarrando e arrancando as roupas.

Perto da pilastra onde a amarraria, já havia deixado a doce masoca sem roupas, só de calcinha; um minúsculo fio dental enterrado naquelas carnes firmes e extremamente alvas, que logo logo ficariam vermelhas de prazer...

Continua...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Quem conduz é o sub


Muitos dominadores vão querer o meu couro pela minha afirmação, mas é uma tese que defendo e admito para os subs com mais repertório: numa relação BDSM, quem conduz é o submisso.

O objetivo do dominador é dar prazer ao submisso por meio dos castigos, confirmando sua vaidade e sua supremacia. Os limites do sadismo, na minha opinião, se pautam onde termina o prazer de infringir a dor e começa o machucar sem função coercitiva nem erótica. Sendo assim, a dor e o prazer do submisso passa a ser o norte da relação SM.

Meu Monstrinho sempre atiça minha curiosidade. Esse é o principal motivo pelo qual é o meu sub preferido (Tolkien, antes que te magoes por ainda não ter sido citado, ainda tenho saudades de ti e sempre vou ter). Graças a astúcia dele em me sugerir coisas nas entrelinhas, comecei a estudar sobre hipnose e me aprofundei em feminização, por exemplo. Conversamos muito, somos amigos e temos respeito um pelo outro, isso é o que mais importa na relação que mantemos.

Não seria possível mantermos um relacionamento BDSM, ainda mais à distância, se não houvesse confiança e cumplicidade. Já erramos, sim, mas sempre tomamos a lição como aprendizado e fortalecimento dos laços de domme / sub e de amizade.

Enfim, a polêmica existe para provocar e para acrescentar. Quem discorde de mim, se manifeste!

As práticas e as preferências

Antes de qualquer coisa, é importante que eu coloque minhas preferências, embora elas mudem com frequência de acordo com as descobertas e leituras que faço. Meu Monstrinho (como carinhosamente chamo MZ) tem contribuído para a metamorfose dos meus gostos.

1. Sou praticante e defensora da inversão como forma de prazer máximo aos homens que se permitem prazer total e às mulheres que se deleitam experimentando o falo como instrumento de dominação. Pratico há algum tempo e tenho me aprimorado na técnica.

Nesta prática, tenho um "brinquedinho" que chamamos de Pretinho Básico. Ele tem 23 cm e é objeto de temor para alguns e prazer para outro especificamente. Por ser um tanto pesado, dificulta o suporte do strap, mas nada que a habilidade e a prática não superem.

2. Sou apaixonada pela arte do bondage e do shibari. Mas sei pouco. O básico faço faz tempo, mas estou aprendendo com meu sub (sim, a gente aprende muito com eles...) a fazer nós lindos, com materiais diferentes e com funções diferentes.

3. O spanking é definitivamente O Instrumento de dominação física. Quem nunca levou uns tapas na vida? Além de ser prazeroso bater (e creio, receber), remete às lembranças mais mundanas do íntimo que, frequentemente, trazem um prazer quase inexplicável. Sou adepta do spanking simples ao moderado.

4. Hipnose erótica é minha mais nova curiosidade sexual. Tenho lido e estudado muito sobre o assunto. Minhas práticas ainda sao tímidas, mas deram bons resultados. É o que pretendo me aprofundar com mais intensidade nos próximos meses.

5. Feminização e práticas crossdressers: Para quem não sabe o que é um CD (ou crossdresser), trata-se de um homem, quase sempre heterossexual, que se excita com a própria figura vestida de mulher. Os acessórios como lingeries, corserts, espartilhos, sapatos de saltos, botas, meias e cintas-liga fazem muito sucesso entre os CDs.

Transar com um CD é uma experiência que aprendi a gostar. Inicialmente achei que não iria curtir, mas depois fui tomando gosto pelo ato de subjugar um homem e utilizar a dominação psicológica sobre ele. Muito frequentemente os CDs não se aceitam no seu próprio fetiche e isso abre uma linda brecha para que sejam dominados. Eu particularmente me excito em imaginar que tenho uma putinha na minha cama sob meus comandos.

Já a feminização é o treinamento do sub para se portar como uma mulher. Mas não se resume apenas aos acessórios ou roupas e sim às atitudes femininas, que podem estar ligadas a alguma fantasia bi ou lésbica da dominatrix. Enfim, como dizem que toda mulher é um pouco lésbica, eu me aproprio do conceito porque me é conveniente. Também é uma prática que pretendo me dedicar mais nos próximos meses.

Além dos que detalhei acima, gosto e pratico massagem de próstata, mumificação, candle wax, privação de sentidos, facesitting, vendas/mordaças/plugs/prendedores e outros apetrechos, brincadeira dos cheiros (nome dado por mim ao treinamento olfativo dos meus subs, onde utilizo aromas de frutas, óleos, ervas e essências); cinto de castidade e privação de orgasmos.

Eu faço sexo com meus subs, mas como forma de prêmio. A todos permito que pratiquem sexo oral e frequentemente os brindo com minha habilidade felativa porque me dá muito prazer chupar pau (não há como dizer isso sem ser assim...). O sexo em si é uma paixão e uma delícia. Transaria várias vezes ao dia. Mas entendo que, no caso do BDSM, é uma espécie de ápice da relação. Quando uma domme e um sub conseguem chegar ao orgasmo juntos, está brindada a afinidade entre ambos!

O porquê do espaço - desabafo de uma domme

Há muitas respostas. A primeira delas é a satisfação da vaidade. A segunda é o intercâmbio de informações entre mim e meu sub MZ que podem ser compartilhadas. A terceira é a minha preocupação sobre a queda do nível das discussões em torno do BDSM.

Como domme há quase seis anos, tenho observado uma crescente curiosidade das pessoas sobre o tema. Há poucos dias, inclusive, compartilhei com meu sub um ensaio fotográfico sado-masoquista de uma modelo famosa para o principal jornal aqui de Santa Catarina.

Mas o que é o BDSM? O que é ser uma mistress ou domme? O que é ser um submisso ou um masoquista? Não tenho a pretensão de dar as respostas, mas quero expor minhas opiniões e minhas experiências, assim como meu sub o fará semanalmente.

Há muitas pessoas inteligentes, cultas e com repertório no meio. Porém, há muita curiosidade e carência atrapalhando as práticas e os relacionamentos SM sérios. Se você quer uma mulher fetichista ou safada, não necessariamente deve procurar uma domme ou uma sub. Se você é uma mulher procurando sexo, não deve se intitular domme a menos que realmente tenha a alma de uma Rainha.

O fato dos praticantes do BDSM se despojarem de muitos preconceitos por conta de seus desejos não os faz aptos a aceitarem qualquer coisa!

Sadismo e masoquismo são artes para quem os pratica e nascem com a pessoa. Claro que é possível que se descubra isso de forma mais tardia, porém sinais aparecem muito cedo na vida de nós, seres "estranhos".

Sou Lady Vulgata, 31 anos de idade e 6 de prática SM.